Uma viagem no tempo. De foto em foto, de lembrança em lembrança, Zagallo voltou em 1958 com o GLOBOESPORTE.COM e analisou toda a campanha da seleção brasileira no primeiro título mundial. Em alguns momentos, emoção. Em outros a memória falhava, mas a imagem falava mais alto. Titular de todos as partidas, coroado com um gol na final contra a Suécia, o Velho Lobo, que ainda era um calouro com a amarelinha, nos conta como o Brasil conquistou a Jules Rimet. Haja história!
24/5/1958 - Embarque
Zagallo não conseguiu se achar na foto do embarque da seleção para a Europa
O GLOBOESPORTE.COM selecionou várias fotos de 1958 e levou em um álbum para Zagallo comentar os 50 anos do primeiro título mundial brasileiro. A primeira imagem mostra toda a delegação pronta para o embarque, no Rio de Janeiro. O Velho Lobo olha, procura, mas não acha: sua cara não aparece entre as dezenas de pessoas na foto.
- Eu estava por ali sim... - brinca o tetracampeão.
O time pegou o avião para a Europa no dia 24 de maio. Zagallo havia estreado pela seleção apenas 20 dias antes, na vitória por 5 a 1 sobre o Paraguai, em amistoso no Maracanã. Fez um gol.
- Foi a primeira vez que eu fui convocado, o que era um sonho meu de garoto.
8/6/1958 - Brasil 3 x 0 Áustria
A seleção que começou a Copa, com Zagallo como titular na ponta-esquerda
Zagallo vê a foto da seleção, e cita todo o time titular, ainda sem Pelé e Garrincha: Gilmar, De Sordi, Bellini, Orlando Peçanha, Nilton Santos, Dino Sani, Didi, Joel, Mazzola, Dida e o próprio, Zagallo.
- Teve um lance interessante, falavam que o Feola (técnico Vicente Feola) dormia no banco... E ele falava para o Nilton Santos: "Não vai não, não vai não". Isso não é verdade, falo com certeza absoluta. Pois o fato foi do meu lado. O Nilton estava com a bola, viu o campo livre e avançou, eu disse: "Vai, Nilton, vai que eu fico na sua". Isso que falam que o Feola dormia ou que mandou ficar é folclore. O Nilton acabou fazendo o gol.
Os outros gols foram de Mazzola.
11/6/1958 - Brasil 0 x 0 Inglaterra
Contra a Inglaterra, seleção brasileira não conseguiu sair do zero no placar
No segundo jogo, a seleção encarou a favorita Inglaterra. Hoje, o Velho Lobo não consegue se lembrar da escalação do English Team.
- Fica difícil lembrar o time deles - ri o ex-ponta-esquerda, após citar os 11 titulares do Brasil (a única mudança para os que enfrentaram a Áustria foi a entrada de Vavá no lugar de Dida).
- O lateral que me marcava, falava comigo e apontava para o placar. E eu não entendendo nada. Depois que eu fiquei sabendo: o 0 a 0 classifica os dois. Então ele pedia para não correr muito - conta.
Mas o inglês estava errado. O empate não classificava as seleções. Tanto que Inglaterra e União Soviética depois tiveram que fazer uma partida de desempate, vencida pela URSS por 1 a 0. Os ingleses ficaram fora das quartas.
15/6/1958 - Brasil 2 x 0 URSS
Camisa 7, Zagallo comemora um dos gols de Vavá contra os soviéticos
Contra a União Soviética, Pelé, Garrincha e Zito entram no time titular. A história mais repetida é que os líderes do time, como Nilton Santos e Didi, pressionaram Feola a escalar os três. Zagallo nega esta versão, mas o novo time deu certo.
- O Pelé não jogou as duas primeiras partidas por causa de uma contusão.
Com belas atuações dos novos titulares, o Brasil venceu por 2 a 0 os soviéticos e avançou para as quartas-de-final. Vavá fez duas vezes.
- Os nosso cinco minutos iniciais foram importantes. A bola não saía do lado direito, com Garrincha, com Pelé, com Vavá. E eu estava na ponta esquerda. A bola não ia para o meu lado de jeito nenhum. Foi uma avalanche! A bola bateu na trave, depois acabou entrando. Isso "tonteou" o time da Rússia - lembra.
19/6/1958 - Brasil 1 x 0 País de Gales
Nas quartas-de-final, seleção brasileira eliminou o País de Gales com vitória de 1 a 0
Sem ser considerada favorita, a seleção se classificou em primeiro lugar no seu grupo.
Nas quartas-de-final, em Gotemburgo, Pelé fez seu primeiro gol em uma Copa do Mundo, o da vitória.
- Nós dominamos a partida. A foto do gol é linda, eu estou dentro do gol (risos). Tem o Pelé apanhando a bola, eu com ele, e veio Vavá e todo mundo.
Pela frente, a temida França.
24/6/1958 - Brasil 5 x 2 França
Pelé ganha no alto a jogada com a França
Na semifinal, o Brasil pegou a França, do artilheiro Fontaine. Zagallo lembra os gols: Vavá abriu o placar, Fontaine empatou; em seguida, 5 a 1 para a seleção, com Didi e Pelé (três vezes); por fim, o último dos franceses, de Piantoni.
- Eles tinham um time ofensivo, que jogava em igualdade de condições. Era o que queríamos - diz o Velho Lobo.
Zagallo lembra que Inglaterra e País de Gales se fecharam na defesa e complicaram a vida do Brasil. Contra os ingleses, 0 a 0. Depois, 1 a 0 nos galeses.
- A França veio enfrentando cara a cara. Partimos para o ataque com a qualidade de Garrincha, Pelé, Didi, Vavá... Eu e Zito também íamos. Esse jogo nos deu muita moral, fomos para a final, coisa que ninguém imaginava.
29/6/1958 - Brasil 5 x 2 Suécia
Pelé e Vavá se abraçam: Brasil bate Suécia e é campeão do mundo pela primeira vez
Dia da final. Zagallo diz que acordou bem, sem nervosismo.
- Quem veste a amarelinha não treme.
Parecia que todos os jogadores brasileiros estavam assim. Nem a notícia que o time jogaria de azul, pela primeira vez, mexeu com a equipe, muito supersticiosa. Os suecos saíram na frente, com gol de Liedholm. Didi pegou a bola e andou tranquilamente para o meio-campo, o que chegou a se assustar com a calma do companheiro.
- Eu falei: "Pô, Didi, estamos perdendo! Por que essa lerdeza toda?". Ele mandou eu ficar tranqüilo, nos passou tranqüilidade.
Deu certo. Os brasileiros passaram a dominar o jogo e empataram com Vavá. Mas Zagallo lembra que tudo poderia ter dado errado.
- Teve um lance, que pouca gente lembra. O Skoglund, ponta-esquerda, cruzou, o Gilmar escorregou e a bola ia entrar. Não me pergunte por que eu estava ali, mas estava dentro do gol e tirei de cabeça o segundo gol deles. Eles fariam 2 a 0 - conta, com orgulho pela "defesa".
Vavá fez mais um, Pelé encantou o mundo com um golaço e Zagallo marcou o quarto.
- A bola veio da direita, eu imprensei com o zagueiro. Eu devia ter caído, mas quem caiu foi ele. A bola foi para frente, caiu na pequena área, o goleiro saiu e eu dei um bico. Ela entrou no lado esquerdo.
Pelé fechou o placar, em jogada de Zagallo. Ao olhar o álbum de fotos, o ex-ponta vê o exato momento que o Rei conclui seu cruzamento:
- A bola foi na cabeça do Pelé. Ela foi pra cima e entrou por cima do goleiro, nos minutos finais.
Antes de fechar o álbum, Zagallo folheia as páginas, vê outras imagens, lamenta que alguns dos seus companheiros de 1958 já tenham morrido. Mas a alegria pelas homenagens no 50º aniversário falam mais alto:
- É bom ser lembrado.

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